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sábado, abril 24, 2010

Amor

Como seria a figura semelhante à humana do Amor? Ele seria o que considerariamos feio, fugiria a qualquer padrão, e teria uma face até engraçada, porque toda a sua beleza não estaria na casca, vai muito além do alcance dos olhos. Ele também teria um quê de misterioso, convidando-nos a mergulhar fundo e conhecer sua história. Seria bastante impulsivo, e muito atento, analisando cada pessoa ao seu redor, e às vezes encantando-se por quem jamais antes havia visto. Alguns teriam medo dele, não iriam querer chegar muito perto, pois não iriam saber com o que estavam se metendo, e têm medo da dor que o amor em alguma hora irá causar. Ele é meio bipolar, umas vezes está feliz e depois bruscamente fica triste, e por vezes esconde-se em seu canto, esperando a hora certa de se mostrar. Isso é muito raro, não é para qualquer pessoa que ele aparece, apesar de não ser tímido; mas por precaução pede à sua irmã Paixão que vá primeiro, para quando esta não for mais o bastante, ele se mostre, apenas quando julgar necessário. Várias pessoas pensam que o vêem, mas é só ilusão, pois ele é meio que um troçador vem e desaparece em um instante, mas ele não faz por mal, em sua cabeça, ele faz o que quiser. Acho que isso se dá pelo fato de ele não ser muito esperto. Se ilude muito fácil também, qualquer coisa que lhe prometem, ele acredita, deve ser sua inocência em excesso; no fundo ele é uma eterna criança. E ele garante que não tem tempo para aparecer e desaparecer, não é só amor os que duram para sempre, até mesmo os que não duram mais que uma semana podem ser amor, só que do tipo passageiro. Em alguns casos ele tem que ir embora mesmo querendo ficar, e isso faz com que ele fique recluso por um bom tempo, inseguro. Ele analisa o coração de seu alvo para ver se ele está limpo, pois tudo estraga em um ambiente sujo. Se um dia você estiver andando e encontrá-lo, não irá reconhecê-lo de imediato, mas permita-o chegar um pouquinho mais perto. Eu garanto: Ele irá surpreedê-lo.

sábado, abril 17, 2010

Sempre em nossos corações, descanse em paz, meu querido avô.

Quarta-feira, dia 14/04/2010, faleceu a pessoa mais batalhadora que eu já conheci e irei conhecer. Meu avô, sem dúvida um guerreiro, um touro por natureza. Cursando até somente a quarta-série do Ensino Fundamental, conseguiu construir um império, e o objetivo de dar a seus filhos uma vida diferente da sua foi alcançado com êxito. Sempre foi um segundo pai para mim, já que eu passava muito tempo em sua casa, eu e meus primos. Só consigo me lembrar de meu avô como uma pessoa alegre, não que ele fosse sempre assim, mas era o único jeito que eu o enxergava. Sempre com orgulho de mim, me exibindo para os outros e dizendo: "Essa daqui é a minha netinha". Ele sempre foi praticamente o dono no bairro, era a referência, não tinha sequer uma pessoa que não o conhecesse, e o adimirasse. Segundo o médico, meu avô foi o paciente mais guerreiro que ele já conheceu, e eu sinto extremo orgulho dele por conquistar esse título. No velório, eu não conseguia acreditar que uma pessoa outrora tão cheia de vida, estivesse deitada de olhos fechados dentro de um caixão. Olhava seu rosto pálido, emergido em um mar de flores amarelas, e ficava esperando que ele abrisse os olhos, e tudo não fosse nada além de um terrível engano. Eu o encarava, mesmo com a visão embaçada pelas lágrimas, e esperava abrir os olhos e dar aquela risada que eu ouvi minha infância inteira, aquela alta, que saía com tanto gosto que ele até inclinava a cabeça para trás. Eu rezava baixinho, pedindo a Deus que soprasse uma lufada de vida, que deixasse aquele coração voltar a bater, ele não merecia algo tão ruim como a morte. Não conseguia entender como alguém tão grande coube em uma caixa de madeira do tamanho de meus braços abertos, eu sempre tive que olhar para cima para vê-lo, e agora olhava para baixo para contemplar seus olhos fechados e expressão serena. Sua boca estava caída, faltando a dentadura que ele me meteu susto durante muitos anos, que ele tirava da boca de propósito para me ver sair correndo e gritando. Acho que esses pensamentos não eram só meus, acredito que muita gente que estava ali também não acreditava como alguém como meu avô poderia estar morto, era simplesmente surreal. Ele era o tipo de pessoa inesquecível, de tanta energia. O padre falava e eu não consegui ouvir uma palavra sequer, em minha cabeça estavam passando vários fragmentos de minha vida junto a ele, tudo o que eu poderia ter dito e não disse. Acho que o mais injusto da morte é você não ter a chance de se despedir, de dizer o último adeus, de dizer algo que realmente faria a diferença. Agora ali estava ele, a expressão do seu rosto parecia que tinha sido um alívio repousar depois de tanta dor. Era o que todos me falavam, que ele estava em um lugar melhor agora, descansando em paz. Mas não era possível, em que outro lugar ele seria feliz assim tão distante de nós? Ele era feliz aqui conosco, era sim, ele não queria ir para lugar nenhum, ou ele não teria lutado tanto. Lembro quando ele estava já doente, fazendo o maior esforço para mover a parte do corpo paralisada pelo AVC. E em um breve espaço de tempo ele já estava andando pela casa de muleta, falando um pouco embolado e entendendo tudo. Foi um progresso enorme e até inesperado. Enquanto isso tudo passava pela minha cabeça, o padre já tinha ido embora e estavam fechando o caixão, eu o olhava tristemente, aproveitando cada segundo para adimirar seu rosto agora tão diferente do que estava em minhas memórias. Minha avó também não queria que o caixão fosse fechado, e debruçando-se sobre ele deu seu último beijo, foi a cena mais bonita e ao mesmo tempo mais incrivelmente triste que eu já vi.Quando o caixão foi fechado, eu percebi que jamais o veria novamente, e a realidade me acordou como um tapa, extremamente doloroso. Eu só queria acordar e perceber que era tudo um sonho. Várias pessoas me consolavam e me abraçavam, mas eu não ouvia nada, nem sequer as reconhecia. A marcha fúnebre até o cemitério começou, e iam meus tios segurando o caixão, e eu atrás, não querendo perder nenhum segundo com meu avô, queria mais uma lembrança dele, mesmo que triste. Estava uma chuva incrivelmente forte, várias pessoas me ofereceram guarda-chuvas, mas eu recusei. O que eram alguns pingos gelados enquanto à minha frente eu via um caixão com meu avô dentro? Eu nem sequer os sentia, estava simplesmente fixada naquela caixa que continha uma vida inteira. Quando eu puder falar com Deus, perguntarei se o céu também fica triste quando alguém morre, e por isso ele faz chover. Então colocaram 67 anos de vida dentro de um buraco em uma parede. Como eles podiam guardar uma vida dentro de uma gaveta, como se guarda um lápis ou um lenço? Era meu avô que estava ali! Eu assistia assustada e em estado quase de transe eles selarem o buraco com cimento e pregaram uma placa com data de nascimento e morte, sempre amado por filhos, amigos e familiares. E em um pequeno quadrado na parede estava meu segundo pai, aquele que sempre brincou, brigou para me educar, batalhou na vida, se ensinou muitas coisas, e fez um ótimo trabalho educando seus filhos. No final, todos batemos palmas, era o mínimo que ele merecia. Palmas por ter desempenhado um papel fundamental na vida de todos ali presentes. Ele era muito mais do que qualquer um poderá imaginar, era meu avô. Que ele tenha o merecido descanso, após resistir tanto contra a doença; talvez ele tivesse mesmo muito cansado. Seu rosto nunca se apagará de nossos corações, e um pedacinho da vida de cada um de nós foi tomado. Onde quer que meu avô esteja agora, eu sei que continuará se preocupando com todos, como sempre fez. Daqui a alguns anos nos encontraremos de novo.
                            Germínio Virginio Marques da Conceição.
                            29/11/1943 - 14/04/2010
                                                                   Descanse em paz.   

sábado, abril 03, 2010

E eu?

Ali está uma garota que sente-se minúscula em relação a tudo o que há no mundo, sentada na calçada abraçando seus joelhos. Ela está esperando por algo que não sabe nem o que é, talvez sejam seus sonhos que constantemente a enganam.
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