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sábado, abril 17, 2010

Sempre em nossos corações, descanse em paz, meu querido avô.

Quarta-feira, dia 14/04/2010, faleceu a pessoa mais batalhadora que eu já conheci e irei conhecer. Meu avô, sem dúvida um guerreiro, um touro por natureza. Cursando até somente a quarta-série do Ensino Fundamental, conseguiu construir um império, e o objetivo de dar a seus filhos uma vida diferente da sua foi alcançado com êxito. Sempre foi um segundo pai para mim, já que eu passava muito tempo em sua casa, eu e meus primos. Só consigo me lembrar de meu avô como uma pessoa alegre, não que ele fosse sempre assim, mas era o único jeito que eu o enxergava. Sempre com orgulho de mim, me exibindo para os outros e dizendo: "Essa daqui é a minha netinha". Ele sempre foi praticamente o dono no bairro, era a referência, não tinha sequer uma pessoa que não o conhecesse, e o adimirasse. Segundo o médico, meu avô foi o paciente mais guerreiro que ele já conheceu, e eu sinto extremo orgulho dele por conquistar esse título. No velório, eu não conseguia acreditar que uma pessoa outrora tão cheia de vida, estivesse deitada de olhos fechados dentro de um caixão. Olhava seu rosto pálido, emergido em um mar de flores amarelas, e ficava esperando que ele abrisse os olhos, e tudo não fosse nada além de um terrível engano. Eu o encarava, mesmo com a visão embaçada pelas lágrimas, e esperava abrir os olhos e dar aquela risada que eu ouvi minha infância inteira, aquela alta, que saía com tanto gosto que ele até inclinava a cabeça para trás. Eu rezava baixinho, pedindo a Deus que soprasse uma lufada de vida, que deixasse aquele coração voltar a bater, ele não merecia algo tão ruim como a morte. Não conseguia entender como alguém tão grande coube em uma caixa de madeira do tamanho de meus braços abertos, eu sempre tive que olhar para cima para vê-lo, e agora olhava para baixo para contemplar seus olhos fechados e expressão serena. Sua boca estava caída, faltando a dentadura que ele me meteu susto durante muitos anos, que ele tirava da boca de propósito para me ver sair correndo e gritando. Acho que esses pensamentos não eram só meus, acredito que muita gente que estava ali também não acreditava como alguém como meu avô poderia estar morto, era simplesmente surreal. Ele era o tipo de pessoa inesquecível, de tanta energia. O padre falava e eu não consegui ouvir uma palavra sequer, em minha cabeça estavam passando vários fragmentos de minha vida junto a ele, tudo o que eu poderia ter dito e não disse. Acho que o mais injusto da morte é você não ter a chance de se despedir, de dizer o último adeus, de dizer algo que realmente faria a diferença. Agora ali estava ele, a expressão do seu rosto parecia que tinha sido um alívio repousar depois de tanta dor. Era o que todos me falavam, que ele estava em um lugar melhor agora, descansando em paz. Mas não era possível, em que outro lugar ele seria feliz assim tão distante de nós? Ele era feliz aqui conosco, era sim, ele não queria ir para lugar nenhum, ou ele não teria lutado tanto. Lembro quando ele estava já doente, fazendo o maior esforço para mover a parte do corpo paralisada pelo AVC. E em um breve espaço de tempo ele já estava andando pela casa de muleta, falando um pouco embolado e entendendo tudo. Foi um progresso enorme e até inesperado. Enquanto isso tudo passava pela minha cabeça, o padre já tinha ido embora e estavam fechando o caixão, eu o olhava tristemente, aproveitando cada segundo para adimirar seu rosto agora tão diferente do que estava em minhas memórias. Minha avó também não queria que o caixão fosse fechado, e debruçando-se sobre ele deu seu último beijo, foi a cena mais bonita e ao mesmo tempo mais incrivelmente triste que eu já vi.Quando o caixão foi fechado, eu percebi que jamais o veria novamente, e a realidade me acordou como um tapa, extremamente doloroso. Eu só queria acordar e perceber que era tudo um sonho. Várias pessoas me consolavam e me abraçavam, mas eu não ouvia nada, nem sequer as reconhecia. A marcha fúnebre até o cemitério começou, e iam meus tios segurando o caixão, e eu atrás, não querendo perder nenhum segundo com meu avô, queria mais uma lembrança dele, mesmo que triste. Estava uma chuva incrivelmente forte, várias pessoas me ofereceram guarda-chuvas, mas eu recusei. O que eram alguns pingos gelados enquanto à minha frente eu via um caixão com meu avô dentro? Eu nem sequer os sentia, estava simplesmente fixada naquela caixa que continha uma vida inteira. Quando eu puder falar com Deus, perguntarei se o céu também fica triste quando alguém morre, e por isso ele faz chover. Então colocaram 67 anos de vida dentro de um buraco em uma parede. Como eles podiam guardar uma vida dentro de uma gaveta, como se guarda um lápis ou um lenço? Era meu avô que estava ali! Eu assistia assustada e em estado quase de transe eles selarem o buraco com cimento e pregaram uma placa com data de nascimento e morte, sempre amado por filhos, amigos e familiares. E em um pequeno quadrado na parede estava meu segundo pai, aquele que sempre brincou, brigou para me educar, batalhou na vida, se ensinou muitas coisas, e fez um ótimo trabalho educando seus filhos. No final, todos batemos palmas, era o mínimo que ele merecia. Palmas por ter desempenhado um papel fundamental na vida de todos ali presentes. Ele era muito mais do que qualquer um poderá imaginar, era meu avô. Que ele tenha o merecido descanso, após resistir tanto contra a doença; talvez ele tivesse mesmo muito cansado. Seu rosto nunca se apagará de nossos corações, e um pedacinho da vida de cada um de nós foi tomado. Onde quer que meu avô esteja agora, eu sei que continuará se preocupando com todos, como sempre fez. Daqui a alguns anos nos encontraremos de novo.
                            Germínio Virginio Marques da Conceição.
                            29/11/1943 - 14/04/2010
                                                                   Descanse em paz.   
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6 Opiniões:

Fabio Pearman disse...

E muito triste peder uma pessoa que agente gosta !!

eu ja perdi miha vô ! foi muito triste mais ja superei !!

forças vivi !

RafaelQueiroz' disse...

eu te entendo :/

Mas as coisas são assim mesmo, a vida continua.

Parabéns pelo blog, muito interessante.

Gui Wilhelm disse...

"Como eles podiam guardar uma vida dentro de uma gaveta, como se guarda um lápis ou um lenço?"

Talvez seja essa a ideia da coisa. Guardar tudo na gaveta e trancar essa gaveta para nunca mais. Mas cada um sempre sabe o que vem guardado em sua gaveta, ainda que não abra. Sabe o que pode existir lá e o que não estará lá de jeito nenhuma. Contudo a sempre um coisa que escape de nosso entendimento e fica lá só esperando ser vasculhada... Segredos de nós mesmos, passados em gritaria de pedacinhos de papel...

Puxa, meus dois "avôs" morreram quando eu ainda era muito criança para me lembrar deles. Pelo que vejo nas pessoas, e principalmente na "Pequena Miss Sunshine" (se não assistiu assista, vc vai gostar), o avô é um ser bastante subsversivo de já ser velho e que já se comportou demais para continuar se comportando na velhice. "Jah chega de ser um bom rapaz", quero mesmo é tentar aproveitar o tanto de vida que ainda pode me restar nessa quase hora de partir. Não tenho certeza, não vi um avô de perto.

Acho mesmo que "A pequena Miss Sunshine" te daria um bom abraço nesse instante de sua vida.

Fabiano disse...

sem dúvida a perda de alguem quem amamos nunca é fácil de ser "devorada". é impressionante como não estamos preparados para a única certeza que temos na vida. mas enfim, nesse momento nada melhor do que a companhia das pessoas que amamos.

http://blog-do-faibis.blogspot.com/

Robson disse...

Lendo seu texto lembrei do meu avô que me criou e que tão pouco liguei quando ele morreu! para mim foi um dia qualquer, escondi de todos o que estava sentindo, até mesmo de mim! fiz do gelo minhas ações, um refugio covarde que usei para me poupar de dor! mas sei que ele, conhecendo como o conhecia, acharia graça dessa minha atitude! é assim mesmo minha amiga, o vazio que fica só pode ser preenchido com as coisas boas que ficaram, com as memórias, e principalmente com as histórias ( que todo avô conta), enfim, é isso aí, é pra isso que estamos aqui! e tenha a certeza que seu avô quer somente o seu sorriso, nada mais!

Mαlu Mαnzαno ϟ disse...

meus sentimentos :/
sei muito bem como é perder um parente tão querido.
No meu caso, logo após de ver minha bisavó, depois de tanto tempo que eu nem a via, ela morreu :/
mas seu blog, ta de parabens :)

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